O tambaqui deixou de ser apenas peixe de subsistência no Norte brasileiro. Em tanques de concreto e viveiros escavados com aeração mecânica, a espécie entra em competição direta com tilápia no mercado de filé e peixe inteiro resfriado. A aposta dos produtores paraenses ouvidos nesta reportagem é clara: aproveitar o apetite voraz do tambaqui em fase de engorda e fechar conta com lotações que antes pareciam arriscadas.
Entre janeiro e abril de 2026, visitamos três propriedades no entorno de Santarém e Belém que operam em regime semi-intensivo a intensivo — de 25 a 38 peixes por metro cúbico na fase final. Nenhuma delas abriu planilhas completas para publicação, mas compartilhou faixas de custo e desempenho que permitem comparação qualificada.
O peso da ração no custo total
Em todos os casos, a ração respondeu por 58% a 67% do custo operacional do ciclo. Formulações com 28% e 32% de proteína bruta predominaram. Com preços de milho e farelo de soja ainda pressionados, produtores testam inclusão de subprodutos regionais — como farelo de babaçu e torta de castanha — em dietas formuladas com acompanhamento de nutricionista.
A conversão alimentar observada variou entre 1,6 e 2,1, dependendo da densidade e da temperatura da água. Tanques sombreados com lona apresentaram ganho médio diário mais estável no período seco, quando a temperatura superficial ultrapassa 32 °C em horários de pico.
Três propriedades · Pará
- Densidade na despesca
- 25 – 38 peixes/m³
- Ganho médio diário
- 3,8 – 5,2 g/dia
- Peso médio de abate
- 1,1 – 1,4 kg
Densidade: onde está o teto
A propriedade com maior densidade — 38 peixes/m³ — alcançou o maior volume despescado por tanque, mas não a melhor margem. O custo extra de aeração e a queda no ganho médio diário nos últimos 45 dias do ciclo comeram o benefício. O produtor, que pediu anonimato, admite que subiu lotação após um ciclo bom e não repetiu o resultado.
Técnicos da Emater citados na reportagem recomendam subir densidade apenas quando há registro histórico de oxigênio estável e ração de qualidade constante. "Tambaqui tolera aglomeração melhor que muita espécie, mas não perdoa noite sem aeração", resume uma agente de Santarém.
Manejo alimentar e horários
O cardume de tambaqui responde mal a mudanças bruscas de horário de alimentação. Propriedades que fracionaram a ração em três refeições — manhã cedo, final da manhã e meia-tarde — relataram menos sobra na superfície e melhor aproveitamento. Ração repousando no fundo vira problema de qualidade de água em tanque pequeno.
O tambaqui parece preguiçoso quando está quente, mas come agressivo no amanhecer. Quem alimenta só à tarde perde performance.
Escoamento e preço na região
O preço na beira do tanque oscilou entre R$ 9,50 e R$ 11,20 por quilo em abril, conforme demanda de restaurantes em Belém e contratos com peixarias de Santarém. Produtores com acesso a caminhão frigorífico compartilhado negociaram melhor que quem dependeu de comprador avulso na semana da despesca.
Para o segundo semestre de 2026, a aposta das três propriedades é manter tambaqui no portfólio — em parte por adaptação ao clima amazônico e em parte por identidade regional do produto. O desafio continua sendo transformar volume em margem quando a ração não dá trégua.
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